domingo, 14 de novembro de 2010

DOMINGO PEDE PALAVRA - 34



MARACI


Como é possível que eu tenha demorado tantos anos para poder finalmente dizer a você que considero o seu nome bonito, o mais bonito para mim?
Você e o nosso circo no quintal, a nossa goiabeira de caule liso, os eucaliptos, o guarda-chuva voando numa tarde de ventania chuvosa.
Onde estávamos quando tudo começou a se perder? Onde estávamos quando começamos a nos separar?
Foi preciso que eu chegasse aqui no alto da minha idade para ter a grandeza de dizer com tanta coragem a coisa mais simples e mais autêntica. Eu amo você, eu a amo.
Você sempre se antecipava no tempo. Eu sempre fui mais lento .
Hoje, quando a lentidão nos meus passos vem tomar o lugar da ligeireza de menino rompendo musgos e galhos na correria para o Juvêncio, o Justiceiro do Sertão, menino ou relâmpago disfarçado feito um vulto ao entardecer riscando a silhueta do coração lilás da bananeira e dos bambuzais enverdejando o horizonte fugaz. Menino...
Sim, disputando corrida com o vento, com a poeira, com a chuva...E hoje, justamente hoje, posso dizer: Eu te amo! 
Como é possível que isso possa ter acontecido? Como é possível que essa verdade possa ter sido encoberta pelo cotidiano das coisas que escorrem e se dissolvem na vida sem autenticidade, que vem quando a inflorescência é substituída pela idade adulta que quase a tudo adultera?
Como uma vida é imensa em seu tempo curto!
Você tem tanto talento, e tanto valor. Sempre teve. Poderia ter se transformado numa pintora, numa poeta. Sim, lembro-me dos primeiros poemas que rabiscou e me mostrou. E que comentários eu fiz? Nenhum.
Quando eu estava na Jovem Guarda, você já estava em Caetano Veloso.
Ele a se barbear diante do pilar da varanda... Daria tudo para tê-lo aqui folheando o jornal, mastigando a sua própria dor e a sua saudade.
Pena que já seja tão tarde, mas hoje eu pergunto, pela primeira vez. Terá brotado alguma lágrima dos olhos dele alguma vez?
E você, quantos prantos terá tido? Prantos são como gargalhadas, que o vento do tempo leva e espalha nos rosais e nos espinheiros...
Nesses anos de estrada conheci a dissimulação, o veneno do coito das mais terríveis serpentes das falsas amizades, a competição entre poetas, pessoas se ocupando com coisas menores enquanto a caravana de sentimentos imensos e profundos passa diante de nós.
Como eu amo você!
Retornar no tempo eu não posso. Aquele minuto que passou por nós já se foi. Inútil correr, inútil lembrar do menino que corria solto entre verdes e anterozóides, inútil pensar nos meus olhos diante da Ferry Boat , diante de você, com seu vestidinho cor de vinho a correr pelo quintal, cabelos longos esvoaçados ao vento, magrinha, varais bailando numa tarde que jamais voltará.
Jamais poderei beijá-la e abraçá-la num tempo que já se foi. Só me resta olhar o agora, esse momento único e transparente. Só nele poderia abraçá-la, só ele é que o passa.

MARCIANO VASQUES

Um comentário:

Regina Sormani disse...

Caro amigo.
Você é verdadeiramente um poeta!
Belas palavras! Linda matéria!
Um abraço,
Regina Sormani