sexta-feira, 5 de novembro de 2010

DOMINGO PEDE PALAVRA - 33



HÁ UMA ESTRANHEZA A CAMINHO?



Escrevo hoje porque a vida é imensa.
Quero me ocupar de um assunto que tanto me incomoda por ser em si tão estranho.
Seria bom se no mundo inteiro todos os povos pudessem saber de algo que está querendo acontecer no Brasil.
Pessoas que se dizem educadoras estão querendo banir da escola um clássico da Literatura Infantil pioneira no país, um livro de Monteiro Lobato. Parece que é isso mesmo. Caçadas de Pedrinho. Meu Deus!
O argumento: Dizem que é racista.
Nietzsche fazia experimentos com o pensar. Scarlett Marton. Sim, é isso mesmo. Veja como a memória é generosa com o bonito acadêmico.
Meu Deus!
Eu era apenas um menino, bem mais menino do que agora, e amava, adorava Tia Nastácia. Que maravilha! Sim, é isso mesmo. Tia Nastácia era tudo de bom. Lembrar daquelas leituras sob a árvore do quintal é trazer de volta o aroma da canela na rabanada dos dias felizes. Como tenho tanto que agradecer a esse homem...
Tia Nastácia...
Que aventura! Como aprendi... Que menino privilegiado fui, graças às duas mulheres inesquecíveis e amorosas para com a infância. Dona Benta e Tia Nastácia. Viajei tanto com elas...
Proibir Monteiro Lobato nas escolas? O homem que ergueu o mais bonito e duradouro diálogo com a infância? Aquele que ofereceu o seu coração para a mais grandiosa contribuição contra o preconceito e a ignorância?
Autor de um belo conto intitulado Jeca Tatu, de extraordinária força poética (Que texto lindo!),  foi o maior inspirador contra a estupidez e a ignorância, como eu disse agora, e assim o escritor fecundo que tanto contribuiu contra o racismo e o preconceito, pensares que só florescem nas trevas.
Ao reproduzir o coloquial, o autor pode ser mal interpretado por uma leitura frágil.
Ao reproduzir o coloquial, ao pôr o espírito da época na boca de seus personagens, pode realmente ser confundido pela fragilidade de algumas leituras.
E falando em espírito da época, eis Emília, a personagem revolucionária de Lobato, transgredindo com sua voz os ditames de uma sociedade patriarcal e abrindo as frestas por onde o sol viria a escoar na nova mulher.
A mulher que encontrou não apenas os primeiros fiapos, os primeiros rascunhos, os primeiros esboços do seu grito na insolente voz da boneca serelepe, mas sim a primeira coragem: irônica, atrevida, esperta, desafiadora.
Todavia os nossos educadores, alguns, estão pensando nesse crime de proibir Lobato nas escolas... Bem, espero que a lucidez possa prevalecer e então que todos venham a compreender que o que precisamos mesmo é de uma reforma no pensamento para que Lobato seja leitura obrigatória em todas as escolas. Com elas: a boneca, a Dona Benta e a tia Nastácia. Que trio!

MARCIANO VASQUES

2 comentários:

armalu disse...

Como estou em Portugal, custa-me um pouco chegar onde tu estas, mas se estas a falar naquele autor que tantas horas lindas de sonho e prazer nos deu, com a boneca emilia feita de trapos e fiapos, a b benta não sei se falamos da mesmo mas meu querido amigo que saudades ... fazem falta aqui em portugal pelo exemplo, de carinho respeito, amor. bj

Art by Lu disse...

O que me preocupa em relação a esse assunto é o descaso com o tema principal do livro: a caça a um animal que está em extinção. Caçar, por si só, já é algo abominavel. Ainda mais um animal em extinção...

É uma faca de dois gumes: o livro pode servir de incentivo à banalização da crueldade contra animais e fazer com que a criança ache que “caçar é legal,” já que o Pedrinho e demais personagens foram “engenhosamente inteligentes para caçar a onça”; ou a obra pode servir de pano para a discussão do quanto é cruel e errado caçar animais.
Acredito que o direcionamento dependerá do educador em questão, como ele irá discutir isso com os alunos? Haverá uma discussão das ações do Pedrinho, levando em consideração a época em que o livro foi escrito, ou somente será lido para que os alunos tirem nota num esquema tosco de “decoreba” pra passar de ano?

Não acredito que censura seja algo bom, mas acredito que as obras, os textos, os artigos, os livros, as pinturas, as esculturas, as gravuras, as peças teatrais, enfim, qualquer tipo de manifestação artística saudável, devam ser discutidas e esmiuçadas ao máximo; educadores devem fazer com que os alunos reflitam sobre os temas.

Resta saber se, do jeito que anda a educação no Brasil, os alunos terão condições de debater temas desse porte... [penso que o educador deveria decidir se sim ou não, qual o nível de preparo de sua turma].
Mas seria uma ótima oportunidade de mostrar que nem tudo que está nas histórias, nos filmes e nos livros é correto e digno de imitação – ponto muito importante na formação pessoal de jovens e adolescentes, na minha modesta opinião.
E quem sabe, dessas discussões não surjam alguns defensores da causa animal?